Irmã Lúcia é freira há 40 anos. Há dez meses, um problema de circulação levou as duas pernas dela.
Quem cuida dela agora é a Irmã Doroteia de 84 anos. Levanta antes do sol, tira a Lúcia da cama, troca, ajuda no banheiro, e ainda dá conta da casa e da capela.
Era a Doroteia que já devia estar sendo cuidada. E é ela que carrega uma freira de 61 anos todo dia.

A Lúcia nunca pediu nada pra ninguém em 40 anos. Então pegou o que sobrou: as mãos. De manhã ela monta os terços, um por um. De tarde vai pro sinaleiro com a caixa no colo, oferecendo terço e bíblia de janela em janela.
Cada um que sai vai pra prótese. Mas prótese custa muito, e a casa vive do pouco que a comunidade divide.
E tem um prazo: se ela passar do primeiro ano da cirurgia sem a prótese, a perna não aceita mais. Já são dez meses. Sobraram dois.

Outra noite, a Lúcia passou pelo corredor e escutou a Doroteia rezando baixinho no quarto. Não pedia descanso. Pedia assim: "Senhor, dá força pras minhas pernas até as pernas da Irmã Lúcia voltarem."
Uma mulher de 84 anos pedindo força pra continuar carregando outra.
Sozinha no sinal, a Lúcia não junta a tempo. E a Doroteia não vai parar de carregar antes de ver a Lúcia em pé.
A Lúcia passou 40 anos do lado de quem dá. É a primeira vez que ela precisa do outro lado.
O que ainda pode mudar essa história cabe nesses dois meses.
E tudo pode começar aqui em baixo:
